Ultimamente tenho notado - e como não se nota - toda essa campanha pela causa do Criança Esperança. Sempre achei este um gesto de fato muito caridoso, que acredito fortemente que este dinheiro é distribuido de forma que realmente ajuda crianças necessitadas. Enquanto não é provado o contrário acredito muito nisso.
Ainda que essa seja uma das principais obrigações do governo indecente do país em que vivo é bom saber que há um grupo de pessoas que se mobilizam para suprir essa necessidade.
Sempre que penso no assunto me volta à cabeça uma situação totalmente constrangedora mas ao mesmo tempo revoltante pela qual passei à um tempo atrás…
Se querem saber estava eu em um dia de pagamento andando no centro da cidade feliz e saltitante por ter ganho R$100,00 à mais do que o esperado, quando passo por uma senhora daquelas que ficam mendigando dinheiro, com roupas e pés sujos e fisionomia incontestávelmente comoventes. Ao lado dela dois meninos, com as mesmas roupas e a mesma fisionomia. Como já era de hábito passei praticamente sem nem ao menos olhar direito e fui almoçar em um restaurante próximo. Enquanto almoçava mil coisas se passavam pela minha cabeça, desde a sensação entorpecente e confortante daquela coca cola com gelo e limão que estava tomando até o primeiro "pepino" que atenderia naquele dia ao cehar no serviço, quando abruptamente lembrei-me daquela mulher que tanto pedia dinheiro na rua e, em consequência, nos meninos que estavam com ela. Então assim que terminei de almoçar fui novamente ao self service e pedi dois marmitex, afinal naquele dia eu tinha um pouco a mais de dinheiro e não custava nada ajudar.
Saí do restaurante e fui direto no lugar onde ela estava. Cheguei com a maior boa vontade do mundo, agachei em frente à ela e expliquei que tinha acabado de almoçar e que comprei aquelas duas marmitas para ela e seus filhos, por que havia notado que pedia dinheiro para comprar comida. Ao contrário da reação positiva que eu esperava recebi um congelante "não obrigada. Não quero comida, e sim dinheiro" . Não consigo descrever a minha sensação no momento, mas observei em seguida os dois meninos com aqueles olhares tão famintos em direção às marmitas ainda quentes, e tornei a insistir que a mulher as aceitasse, pelo menos para seus filhos, e ela novamente recusou, dizendo que precisava de dinheiro. Me levantei então e olhei para as pessoas ao redor. Elas olhavam a mulher com total reprovação e em seguida me olharam com um olhar mais confortante, que demonstraram que eu não era a única à ter ficado tão chocada com a situação.
Saí em direção ao ponto de ônibus na praça, ainda pensando o que eu faria com toda aquela comida. Foi então que vi um senhor com as duas pernas amputadas pedindo ajuda às pessoas que passavam, então resolvi dar a cara ao tapa novamente e fui lá oferecer as marmitas novamente. Expliquei o que tinha acabado de acontecer e em seguida lhe ofereci as masrmitas. Ao contrário da mulher anterior ele abriu um grande sorriso e aceitou as marmitas, me retribuindo com um obrigado, e dizendo até que guardaria uma delas para a janta. Saindo ele ainda brincou dizendo que não aguentaria esperar a janta e de tanta fome comeria as duas naquela mesma hora. Dei um sorriso em resposta e fui novamente em direção ao ponto de ônibus. Saí bastante satisfeita e com a sensação de que havia cumprido minha boa ação do dia. Peguei meu ônibus e fui trabalhar novamente.
É inevitável não se questionar que tipo de ambição a pessoa pode ter naquelas circunstâncias a ponto de rejeitar comida para seus filhos. Desde então não dou nem um centavo à algum mendigo. Isso não significa que eu não ajude mais, e sim que aprendi à ser cautelosa, e tentar ajudar no que a pessoa pede, seja comida, remédio, ou até mesmo uma passagem de ônibus.
Não sou boa em narrações, por isso essa descritiva não tenha sido tão clara. Minha revolta é muito maior do que se possa imaginar, mas mesmo assim me mantenho solidária na medida do possível, ainda que acredite que ser solidário significa colaborar mais ainda para o aumento de situações como essa…
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